Orkut e a Relação de Brasileiros com a Internet
Eu tenho quase 40. Isto quer dizer que eu fiz trabalhos com enciclopédia e folha de papel almaço. Computadores começaram a aparecer na minha adolescência na casa do coleguinha nerd rico do colégio, seguido de 486's para jogar Prince of Persia e impressoras matriciais.
Eles invadiram de vez as casas da classe média junto com Cigano Igor, em equipamentos cor de gelo horrorosos com microfones que pareciam varetas de incenso e caixinhas de som ridículas. O barulho do modem, no entanto, mostrava a limitação de conexão.
Foi só quando eu mudei para São Paulo em 2000 que a internet entrou de vez na minha vida. O ICQ marcava as madrugadas, junto com a possibilidade de ter acesso a MUITO conteúdo erótico.
MINHA PRIMEIRA REDE SOCIAL
Aproximadamente em 2004 eu fui convidado a entrar no Orkut por amigos gays antenados. Era a época em que ainda estava no armário e aquele mundo de colocar "bicurious" no perfil me pareceu maravilhoso. No entanto, não demorou muito para o Orkut cair no gosto dos brasileiros e eu ter que impor uma censura no meu perfil. Isto me levou ao mundo dos blogs, onde eu poderia ser mais livre.. quer dizer, eu achava.
Mas, antes de falar disto, preciso explicar que o Orkut teve, na minha opinião um papel social muito importante no Brasil. O novo fenômeno aproximou muitas pessoas, reconectou familiares, amigos... Brasileiros gostam de se cercar de seus próximos. E os próximos são numerosos para nós.
Mas, o Orkut também ensinou muita gente a lidar com a competição de quem era mais sexy, mais cool, quem tinha mais testimonials, amigos... Lembro de me comparar com outras pessoas e ficar efetivamente arrasado por não ser tão popular. Só que, felizmente, tive um amigo nesta época que me encaminhou um artigo que falava sobre "orkuticídio". (mais precisamente, este aqui... https://www.papodehomem.com.br/cometi-orkuticidio)
A primeira aparição do termo é de 2005 e é intencionalmente forte ao associar a rede social com a palavra "suicídio". Ela descrevia a ação de deletar o próprio perfil no Orkut, "apagando" a presença digital de uma pessoa. Os motivos para tanto eram muitos: efeitos nocivos à auto estima, perda de privacidade e até mesmo da utilidade da rede social.
E assim, a discussão começou. O tema era abordado nas publicações especializadas e chegava nas mesas de bar. E, pelo menos para mim e para aquelas pessoas ao meu redor, o valor do Orkut ficou em suspenso. E, sua substituição por outras redes sociais em aproximadamente 2008 sacramentou que não deveria ser levado a sério.
20 ANOS DEPOIS
A geração que nasceu em 2000, com 20 anos hoje, vive em um mundo em que as redes sociais estão muito mais enraizadas. E, além disto, esta geração tem acesso a recursos de conexão que permitem acessar e postar conteúdo de dentro até mesmo de um carro em movimento em Boituva.
A discussão começada lá atrás parece ajudar pais a lidarem melhor com estes problemas com seus filhos. Vejo amigos meus limitando o acesso, controlando interações e explicando que aqueles números na tela do celular não são reflexo do valor de alguém. Tenho impressão que medidas como a exclusão do número de curtidas no Instagram gerou discussão só no mundo publicitário, por exemplo.
Mas, os efeitos nocivos de redes sociais mudaram. Os filtros que trazem a beleza perfeita causam dismorfia, a prática de bullying, revenge porn e até mesmo a disseminação de boatos e informações falsas mostram que o desafio vai continuar.
E que o Brasil e o mundo ainda não aprenderam a lidar com o mundo virtual.
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